quinta-feira, 1 de março de 2018

Perdas e Danos (1992)

"Lembre-se: pessoas feridas são perigosas"


Perdas e Danos foi um daqueles filmes que eu vi por acaso no final da tarde de um dia qualquer. Claro, o título me chamou atenção, e quando acabou, fiquei estarrecido. Mas calma, vamos do início: é baseado no livro de Josephine Hart (1991). Louis Malle, famoso diretor francês que lançou o seu primeiro longa em 1958 (Ascenseur Pour L'échafaud - Ascensor para o Cadafalso), fez a adaptação cinematográfica e foi responsável por várias obras que lidam com temáticas polêmicas. Essa produção não poderia ser diferente.
O filme é estrelado por Jeremy Irons (que voz!) e Juliette Binoche (que beleza!), que vivem uma relação, digamos, insólita. Para ser apreciado como (e com) um bom vinho (clichê, mas é verdade), o filme não tem pressa, é frio, se passa na Inglaterra e toca na ferida das relações amorosas e sexuais. Te faz perguntar: e se isso acontecesse comigo?
Em meio a uma cena do campo pincelada por Monet, os olhares e os gestos terão que ser sutis. Entre encontros soturnos e secretos, o desejo explode onde quer que esteja, é incontrolável. Tudo começa com um olhar, daquele tipo que a comunicação é clara e evidente, o fascínio e a conexão se unem em forma de desejo entre duas pessoas. Não precisa-se dizer uma palavra, os dois já entenderam tudo, e é na ação que eles se mostram.
A loucura e obsessão por alguém é mesclada a traumas do passado, que afetam o presente e o futuro. O filme trânsita na psique, e nos faz refletir sobre até que ponto as nossas ações podem nos levar e afetar as outras pessoas que estão ao nosso redor.


 

Perdas e Danos, é um tiro certeiro para quem se interessa por relações humanas e psicologia, além de claro, ser um filme impecável em cenários e fotografia. Foi o penúltimo filme de Malle (1992), que infelizmente faleceu em 1994, e assim como Kubrick, nos deixou com uma obra prima do cinema (De Olhos Bem Fechados, 1999).

Ficou curioso para saber que tal relação é essa? É a minha intenção, atiçar e vontade, não dar "spoilers"! Então, se prepara e não perde tempo, a Netflix adicionou o filme ao seu catálogo recentemente! Outra dica do mesmo diretor é "Au Revoir Les Enfants" (Adeus Meninos, 1987), onde um garoto judeu passa por várias adversidades em uma escola na França durante a ocupação nazista. Até a próxima!


"- Não consigo ver nada além de você.
- Acho que você nunca viu muita coisa."

Erick Marques

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Meu Amigo Dahmer (2017)

Eu já havia falado anteriormente sobre Jeffrey Dahmer, quando fiz a resenha da HQ escrita e ilustrada por um de seus colegas do colégio, Derf Backderf. A obra ganhou agora ganhou uma versão cinematográfica, dirigida pelo diretor Marc Meyers e com o roteiro do próprio Backderf.
Fui assistir a produção com grande expectativa, já que o quadrinho não deixou nada a desejar com seus detalhes ricos e ilustrações em preto e branco.


Posso dizer que é um dos melhores filmes que vi ultimamente. De suspense sutil e desenvolvimento calmo, o filme faz jus a obra ilustrada, sem pressa. Enquanto assistia ao filme, visualizei claramente todas as cenas da Graphic Novel publicada aqui no Brasil ano passado. "Meu Amigo Dahmer" não dá prioridade a banhos de sangue exacerbados e assassinatos mirabolantes que só Hollywood consegue produzir. Ele é cru e emotivo, mostra o processo e as consequências que fizeram com que um dos Serial Killers mais notórios do mundo se tornasse o que se tornou, como se fosse um diário audiovisual na vida de um adolescente que se sentia deslocado de tudo e de todos.
Porém, tiveram dois detalhes que me decepcionaram no filme:

I - Uma das sequências mais tensas da HQ é quando Dahmer é parado pela polícia por estar vagando de madrugada sem nenhum motivo aparente. Só que no porta-malas do veículo se encontram os restos mortais de sua primeira vítima. O mesmo afirma que era apenas lixo para o oficial, que acredita e o libera. Essa cena infelizmente não está no filme, senti muita falta, pois o clímax ia ser perfeito!

II - Também houve uma confusão na linha do tempo: Na HQ, Jeffrey faz a sua primeira vítima, Steven Hicks, logo na sequência Backderf está dirigindo e encontra Jeffrey vagando sozinho na estrada, oferece uma carona para deixá-lo em casa, enquanto conversam dentro do carro. Só que no FILME, essa mesma sequência do carro acontece primeiro e Backderf percebe resquícios de sangue nas mãos do colega... Mas é só depois que Dahmer vai matar Hicks. Confesso que fiquei confuso... Como ele poderia ter resquícios de sangue se nem tinha chegado a matar ainda?

HQ - Jeffrey Dahmer mata e depois tem o encontro com Backderf
FILME - Jeffrey Dhamer encontra com Backderf (com resquícios de sangue nas mãos) e depois mata sua primeira vítima(???)

Não vi nenhum cinema exibindo o filme aqui no Brasil, mas pra quem quiser, já está disponível no Popcorn-Time, aproveitem e não deixem de ler o quadrinho também!

Erick Marques





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Entrevista com o vampiro apresenta: André Morais

André Morais é um multiartista paraibano de grande nome no cenário cultural. Natural de João Pessoa, André nos maravilha com a sua obra que transita nas várias vertentes da arte, incluindo música, teatro e cinema; versátil como é, lançou o seu primeiro CD intitulado "Bruta Flor" ,em 2011, fazendo da sensibilidade seu argumento maior para cada canção que assina e interpreta, construindo um retrato da sua alma musical. Em seguida, nos dilacerou com "Dilacerado", album de 2015, onde explora o amor e o erotismo, apresentando dez canções de sua autoria que construiu ao longo de três anos. "Bruta Flor", que também é o nome do monólogo-musical, traz o artista vivendo um trovador que conta e canta a sua história com músicas compostas em parceria com Chico César, Carlos Lyra, Ná Ozzetti, Edu Krieger, Marco Antônio Guimarães, Ceumar, GianaViscardi e Milton Dornellas. “Diário de um Louco”, espetáculo teatral, baseado no conto russo de Nikolai Gogol foi feita em parceria com Jorge Bweres, numa produção do grupo Teatro Lavoura. A obra foi apresentada em mais de 60 cidades do Brasil, através do projeto Palco Giratório promovido pelo SESC. O espetáculo expõe as confidências de um homem comum que encontra na loucura o meio de vencer a mediocridade da existência. No cinema, trabalha como roteirista e diretor, “Alma”, seu primeiro filme, participou de mais de 20 festivais no Brasil e exterior. A obra cinematográfica conquistou o prêmio de Melhor Curta, no Festival Latino-Americano de Toronto, no Canadá; o Prêmio MEC de Melhor Curta Universitário Brasileiro; além dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Curta-Metragem pela Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco (ABD – PE) no CINE-PE 2005. Em 2009, o projeto de longa-metragem “Rebento”, de sua autoria, venceu o Concurso do Ministério da Cultura para Desenvolvimento de Roteiros de Longa-Metragem inéditos.


1 - André, em qual momento você percebeu que tinha aptidão para o mundo artístico?
Eu comecei a fazer teatro no colégio para fugir da educação física! Na adolescência, estar na energia competitiva do esporte não era algo que queria. Pisei no palco do Teatro Ariano Suassuna, no Colégio Marista, e lá comecei a ter contato com um mundo novo. A partir desse momento eu pude perceber que alguma coisa em mim ocupava um lugar. Um sentido de vocação mesmo! Minhas energias todas se voltavam para isso, para essa construção de um fazer artístico. Onde eu tenho um canal de expressão genuíno e onde eu vivencio um processo de amadurecimento como artista e como homem. Ali eu entendi que o que parecia ser minha fraqueza, ser sensível, sonhador e imaginativo, era a minha força.

2 - Música e performance. Qual é a importância da junção do som e da teatralidade nos seus espetáculos?
Na verdade, essa é a gênese do meu trabalho. Misturar, unir, borrar um pouco essas fronteiras das artes. Eu digo que o teatro é a minha “arte-mãe”, é a base de onde todo processo se desdobra. Então, pela minha formação como artista, não faz sentido ir por outro caminho. Eu penso sempre um show como um espetáculo, e eu sou sempre um ator em cena. Por isso, a palavra dita é tão importante quanto as canções. Nesse momento, também tenho trazido a dança, pela minha vivência de trabalho de expressão corporal que o teatro me trouxe, e assim vou construindo as camadas de cada espetáculo.
3 - Quais são as suas maiores referências no mundo do cinema e como elas transitam no seu trabalho?
Meu primeiro encantamento, na infância, foi com o cinema nacional mesmo. Os filmes dos Trapalhões ficaram muito guardados na minha memória. Depois, na minha adolescência, fui ter contato com o cinema brasileiro mais genuíno, de Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, até Central do Brasil. Nesse tempo, também comecei a fazer trabalhos práticos no audiovisual, foi quando decidi entrar para faculdade de Jornalismo e daí abrir meus olhares para o cinema do mundo. Bergman, Kieslowski, Truffaut, Angelopoulos, Billy Wilder e uns tantos outros, viraram referências fortes.

4 - Qual é o maior desafio de produzir uma obra cinematográfica?
O maior desafio é vivenciar todo processo. São muitas etapas, que demandam tempo e dedicação. Meu último filme, Rebento, meu primeiro longa-metragem, foi um processo de 10 anos. Desde a etapa de criação do roteiro, a captação de recursos, a construção de uma equipe, a preparação de elenco, as filmagens e etc. Tudo é uma grande demanda de energia. Agora estou vivenciando o grande desafio que é fazer o lançamento de um longa, não é fácil.

5 – O Festival de Música da Paraíba, que vai acontecer em João Pessoa no início do ano que vem, está proporcionando aos artistas uma oportunidade de visibilidade e reconhecimento. Qual é a importância do Festival para os musicistas e compositores da terra?
Eu penso que é uma grande celebração! Uma celebração da música paraibana, uma celebração dos artistas que estão juntos nessa lida do fazer artístico. Também penso que é um encontro com os artistas de outras cidades, e isso é de suma importância, aproximar mais a Paraíba. Estou curioso para ouvir e aplaudir as obras dos meus amigos de ofício, que estão construindo coisas tão belas! Fico feliz de poder admirar e ter como referência, nesse momento, os artistas que são da minha cidade, muitos da minha idade, produzindo com tanta vocação e delicadeza. Vivenciamos um momento belo e que alegria poder celebrar isso!
6 - André, agora nos diga uma música, um filme, um clipe e um livro que te inspiram no processo criativo.
A música é "7 Cantigas Para Voar" de Vital Farias, o livro "O Amor Natural" de Carlos Drummond de Andrade, o clipe é "Sutilmente" do Skank  e o filme "Nós que Nos Amávamos Tanto" de Ettore Scola.

Erick Marques

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Entrevista com a vampira apresenta: Jamila Marques

Jamila Marqes é uma libriana, cantora e compositora piauiense de berço, e paraibana de coração. Aos 17 anos de idade, mudou-se para Campina Grande, onde cursou Odontologia e logo em seguida ingressou no Mestrado pela Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. Nascida em uma família de cantores, compositores e artistas plásticos, Jamila não fugiu à regra e encontrou na música um "caminho para realização e felicidade". Começou a compor em 2012 e, desde então, não parou mais. Atualmente, possui um projeto autoral, com a banda que leva o seu nome, em parceria com Pedro Regada, Diego Miranda, Ruanna Gonçalves e Philippe Dias. Definindo o seu estilo como "World Music", suas canções possuem referências do reggae, funk, jazz, pop, samba e forró. Em 2017, lançou dois clipes com as canções "Reconversa" e "Quem Sabe Felicidade", ambas de sua autoria. Atualmente está no processo de pré-produção do seu primeiro EP, que deve ser lançando em 2018. Paralelamente, participa de um projeto que homenageia mulheres da música, levando mensagens de empoderamento feminino e defendendo o espaço da mulher no mundo da música, juntamente a artistas locais como Morgana Morais, Ruanna Gonçalves e
Marcondes Orange.


- Jamila, como surgiu essa paixão pela Paraíba?
Eu tenho paixão pela vida e em vivê-la. Quando tinha 17 anos, fiz vestibular para alguns locais diferentes e então, apesar de passar na minha cidade, no Piauí, resolvi cursar odontologia na Universidade Estadual da Paraíba. Eu queria conhecer outra cultura, estilo de vida e experimentar minha independência e liberdade. A consequência de tudo isso, é meu coração ter se rendido aos encantos desta terra e hoje declarar-se "Piauíbano". Vivo aqui há mais de dez anos e sou grata, por a Paraíba ter me pegado no colo, como uma mãe gentil.
- De formação acadêmica em odontologia para a música, você imaginou que um dia adentraria na vertente musical?
Apesar de sempre sentir a arte correndo nas veias e fazer parte de uma família de escritores, compositores e artistas plástico, a musica era, para mim , uma atividade paralela, um hobby, uma terapia. Quando surgiram as composições, comecei a mostrar, timidamente, aos mais próximos e todos que ouviam diziam: "Ah! mas você tem que mostrar isso para o mundo". Isto reverberou em mim e para além. Hoje, mais que o meu hobby e a minha terapia, a música é o meu caminho para a felicidade e o melhor, ainda é o meu trabalho. hahaha.
- A composição e as ideias surgem muitas vezes quando menos esperamos, de modo natural e
despretensioso. Como é o seu processo de composição?
É exatamente assim que funciona. Costumo dizer, que estou nua e crua nas minhas composições. O que faço é traduzir em forma de canção, sem máscaras, que vem do âmago do meu ser... Há composições que vem inteiras, já outras vêm em partes. Lembro-me de quando fiz uma canção chamada "Apego", em um dia de muita saudade de minha família. Este presente, me chegou em 10 minutos. Compor é algo místico.
- O quê podemos esperar do seu EP?
Muita poesia reunida sob referências do forró, pop, samba, mpb, reggae, jazz e funk. Nosso som não se enquadra em gênero específico, ele é world music e isso é o que torna o projeto interessante, este leque de possibilidades. Utilizar a música como mecanismo de aproximação, diálogo e compreenção é uma intenção.
- Atualmente você está homenageando a cantora Rita Lee com um show especial, juntamente com Morgana Morais, Ruanna Gonçalves e Marcondes Orange. Como é cantar e reverberar a obra da Ovelha Negra da música brasileira, e qual é a importância que ela tem para o empoderamento feminino?  
Está sendo um maravilha de encontro e de proposta. Só tenho a agradecer a Morgana Morais, pela
iniciativa. Quem introduziu a Rita Lee na minha vida, foi a mamãe, D. Dila. Ao invés de cantar 'Boi da Cara Preta" para me ninar, ela me cantava "'Ovelha Negra" (gratidão, hahaha). As canções da Rita são bem a frente do seu tempo e trazia, desde muito, discussões a respeito do empoderamento feminino e autonomia da mulher, em épocas nas quais as massas nem se quer questionavam-se a respeito disso. Para mim, 'Agora Só Falta Você" é um hino que me encorajou, em vários momentos da minha vida, a " ser quem eu sou e estar onde estou".
- Os festivais são grandes polos de divulgação para os artistas mostrarem o seu trabalho para o grande público, o quê você acha da iniciativa do Festival de Música da Paraíba e, na sua opinião, o quê ele para proporcionar para os musicistas e compositores do nosso Estado?
"Minhas preces foram ouvidas", foi a frase que usei quando vi o edital... hahaha. Estava esperando por isso. Nós temos uma cena cultural muito rica, e a união e interação desta cena através de um Festival grandioso, como este, fortalecerá e muito o movimento artístico na Paraíba. Eu acredito que o caminho é este. O caminho do incentivo ao artista local, a reunião e união, daqueles que vibram numa mesma sintonia através da arte, para levar, com força, o nome da Paraíba para o mundo. Parabéns ao Governo do Estado, à Funesc , à Radio Tabajara e demais parceiros, pela iniciativa.
- Para fecharmos esse papo da forma mais inspiradora possível, diga-nos uma música, um clipe, um filme e um livro que te inspiram.
A música é "Tempo Rei" de Gilberto Gil, gosto muito do clipe "Girls Just Wanna Have Fun" de Cindy Lauper, o filme é "Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain" (O Maravilhoso Destino de Amelie Poulain) e o livro é "A Elegância do Ouriço" de Muriel Barbery.

Erick Marques

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Mãe (2017)


Conheci o trabalho de Darren Aronofsky em 2010, quando o diretor lançou um de seus filmes mais conhecidos, "Cisne Negro", estrelado por Natalie Portman. Na época, cheguei a assisti-lo (se não me falha a memória) três vezes no cinema e até participei de uma roda interativa para discernir sobre o figurino da produção com alunos do curso de Design de Moda.
Cada vez mais fui me atentando ao trabalho do cineasta, responsável também por "Requiem para um sonho" (2000), estrelado por Jared Leto e "O Lutador" (2008) com Mickey Rourke; se aventurando também no mundo dos quadrinhos com a Graphic Novel "Nóe" (2014).



Eis que após algumas tentativas de ver o seu mais novo longa, intitulado simplesmente de "Mãe", eu finalmente consegui. Apesar de ter visto o trailer algumas vezes, eu realmente não sabia do que se tratava o filme (ainda bem, o Marketing foi inteligente, além de surpreender o espectador), me surpreendi. A produção estrelada por Jennifer Lawrence e Javier Bardem nos prende, mas é preciso se permitir envolver por tudo que acontece na tela.
É repleto de camadas e detalhes que depois são descaradamente jogados na cara de quem assiste em sequência frenética de acontecimentos.
Eu me vi tendo as mesmas reações da protagonista, reação essa que também é proporcionada pelo artifício da "câmera em primeiro plano" usada por Aronofsky, inclusive em "Cisne Negro". Drama, suspense e terror psicológico estão presentes na onda absurda, surreal, que também conta com Michelle Pfeiffer e Ed Harris no elenco. Faz uma crítica a obsessão pela fama, até que ponto a loucura e alienação afetam o nosso ser? Ânsia pela aceitação e visibilidade. Tema bastante recorrente nos dias de hoje.
Interessante notar que, até um aparelho celular (atual) aparecer em cena, eu não sabia exatamente em que época o longa era adaptado, questionamento esse que é causado pelos figurinos, objetos de cena, móveis antigos... O casal não possui nem sequer uma televisão em casa, não sei se foi intencional, poderia se passar muito bem em algum momento do começo do século passado. Sexismo e opressão feminina são temas recorrentes, agora mais do que nunca, Aronofsky os aborda; outro motivo para a minha dúvida em relação a linha do tempo, era mais comum o sexo feminino se submeter ao masculino em épocas remotas.


No cinema, vi todo tipo de reação: um casal saiu da sala pouco antes da metade do filme (uma pena), outro reclamou dizendo que queria o dinheiro do ingresso de volta, algumas refletindo sobre o que acabaram de ver... Mas o que foi unânime foi a discussão sobre o que se passou na tela.
Enquanto descia as escadas, observei que todos estavam confabulando entre si sobre o que tinham absorvida e suas devidas interpretações acerca dos acontecimentos.
Imbuido de referências bíblicas e relances do pintor contraditório espanhol Francisco Goya, "Mãe" é um verdadeiro apocalipse que começa silencioso, assim como a maioria das tragédias da humanidade.
Dividiu opiniões, iniciou discussões. Amar ou odiar. Esse é o papel da arte na sociedade.
O fazer pensar.


@bloglaranjacravo






quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Resenha: O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias


Em 2010 eu vi pela primeira vez o livro "O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias" do cineasta Tim Burton, eu e alguns amigos vivíamos explorando uma livraria que se encontrava em um shopping de João Pessoa (aos que moram na cidade, uma dica: ele fica no bairro de "Manaíra" e não, eu não estou ganhando patrocínio desse estabelecimento.)


Dentre as várias descobertas literárias encontradas na minha adolescência eis que esse pequenino livro amarelo foi uma das melhores! Sim, eu já era fã de Tim Burton desde que me entendia por gente. Na verdade, essa já é a terceira edição (brasileira) do livro (novembro/ 2010) lançado originalmente em 1997 que passou por duas reimpressões (2014/ 2016). Na época, eu sempre o via de relance na livraria porque queria comprar e apreciá-lo com a devida calma e respeito, porém, quando consegui a grana já não o achava mais, lembro que procurei, mas nada.
Sete anos depois eu achei o pequeno Menino Ostra e as outras histórias, ou eles me acharam me fazendo rir das ironias, do humor negro que é orquestrado magistralmente pelos poemas e ilustrações do cineasta, e me fazem ficar aflito pela realidade crua e realista na qual os seus personagens infantis são submetidos. Realidade essa que Tim mostra por serem desajustados, deslocados, excluídos, não convencionais ou simplesmente eles mesmos. Temas polêmicos são abordados de modo subconsciente nas aquarelas fazendo com que o impacto seja maior. 
Burton usa de recursos metafóricos e fantasiosos para mostrar com um bom humor negro o que acontece na nossa realidade, muitas vezes cruel. A obra definitivamente é dúbia, sendo alegre e triste, constantemente tragicômica e o mais importante: Nos faz refletir.


"E como era noite de Halloween
O Menino Ostra se fantasiou de ser humano."

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Resenha: Meu Amigo Dahmer

"Cheio de Dahmerismos..."


E se um colega seu do colegial fosse um serial killer? Como você reagiria? É disso que se trata "Meu Amigo Dahmer" do artista e escritor Derf Backderf publicada recentemente pela editora Darkside no seu novo seguimento de Graphic Novels. A história se passa nos famigerados anos 70, Backderf conheceu Jeffrey Dahmer quando ambos estudavam na escola "Revere", no estado de Ohio, onde compartilharam de diversos momentos e onde ele conseguiu observar as ações do colega esquisitão de perto.
Jeffrey Dahmer foi um dos mais notórios assassinos em série que o mundo já viu, acusado de 17 mortes! Mas o que mais chocou nesse segmento é a natureza sexual e pervertida envolvendo necrofilia e canibalismo que os casos apresentam. A ideia de fazer uma HQ veio logo após os crimes serem descobertos em julho de 1991, primeiramente sendo publicada em oito páginas na antologia  "Zero Zero" em 1997, onde instantaneamente ganhou muitos elogios e virou um clássico. Após algumas tentativas nos anos seguintes, Derf decidiu produzir a obra do jeito que tinha previsto, aperfeiçoando o traço e detalhando a história, essa que corrobora a vida do famoso serial killer de uma maneira jamais vista antes. Como adolescente excluído com gostos peculiares, sua vida dentro de casa não era nada amistosa, com pais conflituosos á beira de um divórcio, seu passatempo favorito era recolher, armazenar e dissecar animais mortos que encontrava pelas redondezas, esse era seu universo.


O mundo bizarro de Dahmer parece não ter limites, mas é interessante como o autor/ desenhista consegue ser tão detalhista em todos os momentos, captando as emoções dos personagens. Para compor a obra Backderf entrevistou dezenas de ex-colegas e professores, além de se debruçar sobre os arquivos da polícia e do FBI. Como diz o autor: "A premissa desse livro é de que Dahmer era um personagem trágico, mas isto só se aplica até o momento em que ele mata..." 
"Meu amigo Dahmer" é uma obra detalhista, uma mistura de adolescência no "High School" americano com aquele ar de perigo e suspense! Aliás, as ilustrações noir e soturnas do autor são simplesmente fantásticas, se assemelham com os desenhos de Robert Crumb, enchendo os nossos olhos.


O livro ainda conta com fontes detalhades de diversos meios de comunicação envolvendo o caso, notas de esclarecimento adentrando os acontecimentos página por página, biografias sobre os envolvidos, cenas deletadas, esboços e material extra (incluindo a primeira HQ "O Jovem Jeffrey Dahmer" publicada em 1997). Um prato cheio e a "Darkside" caprichou muito, vai encarar?